Como já não estou a ir para novo, tenho um pouco a tendência para levar à conta das novas gerações o desinteresse pela leitura, pela polémica não fundamentada no texto (ou autor) citado, pela facilidade como se criam “casos” e “indignações” sempre (e só) quando o tema é falado nos media.
Felizmente, volta e meia a realidade me leva a recordar que neste país poucos se dão ao trabalho de ler e, dos que lêem, muitos ajeitam o texto de modo a confirmar o que pensavam antes. Provavelmente, esta tendência agravou-se nos séculos da Inquisição quando era tido por verdade e boa justiça os testemunhos e confissões arrancados sob tortura. Ou seja, não interessa o que alguém realmente disse, mas interessa dizer que o que diz é aquilo que se pretende que diga…e daí ter pretexto para as tais “indignações” e “ultrajes” que tão bem ficam na vida em sociedade.
Depois há quem critique leituras superficiais, apressadas, tendenciosas ou simplesmente estúpidas. De facto, isso até é fácil num ambiente cultural que passou rapidamente do analfabetismo à iliteracia. Também terá algo a ver com o facto de, em Portugal, o tal livro “mais lido, mais vendido, etc e tal” ter sido traduzido para a língua nacional numa fase já muito tardia ( e mesmo assim à revelia do credo dominante), o que nem será assim tão relevante num país analfabeto onde os poucos alfabetizados sabiam (e a crer nos poetas satíricos da época, muito mal)) Latim. Pior, muito pior, terá sido a convicção de haver boas leituras que não podiam ser facultadas aos leigos sem o necessário condicionamento (ou palas) para a correcta interpretação (ou ortodoxia).
Afinal, já Platão considerava, ao seu modo, a literatura homérica ”um manual de maus costumes“.
O bom destas tempestades em copos d’água é que despertam alguma curiosidade e há sempre quem procure os textos originais para descobrir o que há lá de tão sacrílego.