Ayer, el Senado aprobó otra enmienda considerada clave por la Iglesia, la que impedirá a los pacientes renunciar a la hidratación y alimentación artificial. Maurizio Gasparri, líder del grupo del Pueblo de la Libertad, estaba exultante: “El partido de la muerte y la eutanasia no ha ganado”. Y el ministro de Sanidad, Maurizio Sacconi, resumió con otro eslogan episcopal la aprobación: “Con esta ley no será posible nunca más un caso Englaro”. (in El País)
A perplexidade de quem questiona o “interesse” de quem não é católico (ou sequer crente de alguma coisa) pelas posições do Papa tem no exemplo mais recente de Itália a resposta: nossas sociedades laicas, no interior da Comunidade Europeia, estão sujeitas à pressão política religiosa, com suas simpatias partidárias e jogos de poder, umas vezes às claras, a maioria das vezes nos bastidores.
Ao exigirem a proibição do aborto voluntário em qualquer circunstância, porque não há-de chegar depois a exigência da proibição do divórcio? Ao se oporem ao uso do preservativo em qualquer circunstância, porque não há-de haver uma lei a proibir a sua comercialização? Ao se oporem ao direito a reclamar a morte assistida no contexto dramático dos doentes terminais ou de pessoas em coma há anos, porque não criminalizar as tentativas de suicidio? A lista é infindável e basta ver o que se passa nas sociedades onde o Direito é praticado segundo o que as autoridades religiosas entendem ser a vontade divina, para se perceber o que está em jogo.
As guerras religiosas que eclodiram na Europa ao longo dos séculos XVI e XVII, afectando os países mais desenvolvidos na ciência, na técnica, na organização social, na actividade económica, tiveram como reacção um saudável espírito de tolerância, liberdade, laicismo, individualismo e crítica, culminando no Espírito das Luzes. Foi pela força social desse espírito iluminista e sua evolução no que entendemos ser hoje uma sociedade livre, democrática, laica, que a Igreja Católica lentamente evoluiu para a entidade que hoje conhecemos, mais ou menos marcada pelo Concílio Vaticano II, e cujas variações nacionais traem o seu “pecado original” que é a vontade de impor sua Verdade e Salvação através do poder do Estado.
Se, como escreve o João Tunes, a Igreja Católica se limitasse a proibir às “senhoritas” católicas o recurso à pilula, ao planeamento familiar, à interrupção voluntária da gravidez, ao sexo extra-conjugal, ao divórcio, etc, etc, sob ameaça de penitência (voluntária, bem entendido), excomunhão e condenação às chamas do Inferno, o máximo que pessoas ateias, apóstatas e blasfemas como eu diriam a propósito do papa e quejandos seria ” e ainda há quem os leve a sério?!”
Mas não é assim: o interdito é para ser aplicado a todos os cidadãos, e isso é inadmissível quando o que está por base são convicções de ordem confessional com aplicação na vida íntima de qualquer um. Quando se assiste ao espectáculo mediático, às campanhas virulentas, à má-fé despudorada e à manipulação execrável das emoções das campanhas anti-interrupção voluntária da gravidez, anti-direito à morte assistida, anti-casamento entre pessoas do mesmo sexo, dá para entender o potencial de violência e a pulsão de poder que o chamado “sentimento religioso” pode albergar conjuntamente com o lado benigno de fraternidade, solidariedade e não-violência activa. Torna patente, até, porque é que fenómenos abjectos como o nacionalismo étnico encontram nas estruturas religiosas locais uma plataforma ideal de exaltação de fidelidades e ódios atávicos.
No sec.XX assistiu-se à “morte da ideologias”, essas herdeiras “degeneradas” do espírito iluminista pela sua aparência racional a esconder estereotipos mentais de subordinação e ausência de crítica. O sec.XXI assiste ao “renascer do espírito religioso”, não na sua vertente contemplativa ou aberta para o mundo, mas nas já esquecidas figuras do “guerreiro da fé”, do “vigilante da moral e bons costumes”, para quem o Estado e o Direito não podem contrariar a Lei de Deus, nem a Sociedade pode ser “afrontada” nos seus principios e valores. Esquecidas?! Só no chamado mundo ocidental (e mesmo assim…): veja-se como os estados confessionais relacionam cidadania com a obrigação de seguir a religião de Estado, a obediência ao Líder Espiritual.
É por tudo isto que a mim, ateu confesso, me interessam e me preocupam as “dores” do Papa e da Santa Madre Igreja.

Detalhe da Beata Ludovica Albertoni de Gian Lorenzo Bernini