Houve um tempo em que se dizia que o importante é participar (outra variante: jogar). Havia o fair-play (intraduzível em português, segundo as más-línguas), havia que saber perder.
Tempos houve em que se lançavam suspeições psicanalíticas sobre a necessidade de afirmação, a vontade em ser o primeiro.
Não gostar de perder nem a feijões, por exemplo, já é uma expressão actualíssima, algo ingénua (haverá quem goste de perder, mesmo a feijões?). Ora, para ser o melhor, há que “especializar-se”. Mas o que será mais admirável: um atleta que ganhe oito medalhas numa modalidade ou outro que não ganhe nenhuma, mas tem aptidões para participar em mais do que uma modalidade (tipo natação+ciclismo+corrida)?
Já os antigos gregos também “não gostavam de perder nem a feijões”, celebrando seus heróis olímpicos, fazendo das competições desportivas um sucedâneo benigno das rivalidades entre as pólis. Veja-se a prova da maratona, tributo a um combatente que corre até à exaustão e morte, depois de cumprido o seu dever. Porém, esses eram tempos duros e o pentatlo era uma prova muito apreciada.
Desde o sec.XX, o desporto já não se limita a sublimar combates entre nações. Sua organização em grandes eventos internacionais (e não vamos boicota-los em nome do Tibete) é, assumidamente, uma forma de afirmação nacional (onde as crianças “feias” cedem a voz às crianças “bonitas”), de pujança económica (desde que se esqueça o reverso da medalha), de glorificação do regime (sem alternativas). Cada vez melhor servido pelos media e pela técnica, o desporto torna-se espectáculo mundial (e não vamos estraga-lo insistindo no famigerado tema dos Direitos Humanos), logo oportunidade de negócio (e não vamos prejudica-lo falando da Liberdade de Expressão) cada vez mais apetecível. Bem haja!
