Nascido no início da década de 60, ainda vivi mergulhado na ideologia multiracial do Império Português. Abstraindo o contexto colonialista e as intenções que a motivavam, creio que seria hoje apodada de “multiculturalista”: éramos todos portugueses (do Minho a Timor, passando por Goa, Damão e Diu que já nem eram “nossas”), independentemente da cor da pele, dos usos e costumes folclóricos, etc.
Da escola primária, do livrinho de “História de Portugal” recordo a figura do elegante soldado português do sec.XVI de mão dada com uma bela indiana, legenda aludindo à importância dos casamentos mistos promovida por Afonso de Albuquerque para o “nosso” domínio no Oriente. Todos iguais, todos diferentes, tu também Salazar?!
Certamente por via desta “formação” ideológica, era habitual ouvir o comentário inocente, assumido, “os portugueses, não somos racistas”, logo acompanhado da ressalva “não sou racista, mas…”, sempre que a conversa se alargava para hipotéticos cenários ” e se…? ” ( tipo: e se a tua irmã se casasse com um preto? e se um cigano viesse morar ao lado de tua casa?).
No seu esforço de justificação, o regime apoiava-se no luso-tropicalismo de Gilberto Freyre (“Casa Grande e Sanzala” fora publicada no mesmo ano da aprovação da Constituição em vigor à altura, mas em 1933 não haviam pruridos sobre a questão colonial). E o que o Freyre salientava era o carácter benigno da colonização portuguesa _a miscigenação das raças_ quando comparada com a estrita separação que se verificava nos outros impérios coloniais europeus.
Independentemente das razões do regime e da exactidão dos estudos de Freyre, aquilo que recordo desses tempos era a mensagem de “sermos todos portugueses” e de que mulatos, mestiços (chamem o que quiserem) era uma mais-valia nacional. Treta? Mistificação? Pois, mas confesso que por ter sido vítima da exposição prolongada, e em tenra idade, desta intoxicação ideológica (além de factores familiares intrínsecos), hoje mantenho uma afinidade afectiva (geralmente platónica) com tudo o que tenha a ver com o antigo império colonial, assim como acho bela a imagem (pirosa, sem qualquer valor artístico, certamente sem exactidão histórica) do tal português de mão dada com a indiana, na sua sugestão duma relação amorosa entre iguais (na diferença de sexos, raças e culturas).
Ora, o meu maior choque com o racismo larvar ou ideológicamente assumido foi após o 25 de Abril (para os mais novos: 25 de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, se quiserem saber mais vão ao google ou à wikipédia). Por um lado, eram as denúncias sobre o que o regime de facto fez nas colónias e das contradições entre a realidade e o discurso oficial (levando-me a concluir que aquilo que entendia ser a boçalidade de alguns era geral e institucionalizado, afinal). Por outro, instalava-se um discurso assumidamente racista, alimentado pelas catástrofes do processo de descolonização e do PREC (esta do prec é só para iniciados ou maiores de 40 anos).
Com a “europeização” de Portugal (que demorou uma década, pelo menos) e a subida subsequente para o ranking dos “países desenvolvidos”, cultivei a ilusão de que o cosmopolitismo seria um excelente factor para uma melhor compreensão e atitude frente às ideias contrárias, aos costumes diferentes, a diferentes tonalidades da pele. Afinal, apesar da ideia generalizada de que o português corria mundos ao longo dos séculos, fosse como navegante, missionário, mercador, fosse como emigrante pobre no Brasil, colono pobre em África ou pobre da mala de cartão em França, aqui no rectângulo viviamos a globalização sempre com décadas de atraso.
Agora ricos (agora, não! dez, quinze anos atrás…vá lá, ainda há meia-dúzia de anos), passamos a ser país de imigrantes oriundos de África, do Oriente, da América do Sul, até do Leste da Europa! Ricos, para variar, mas sempre arrogantes ao falar dos que menos têm.
Como se sabe, fruto do karma de termos andado por tanto lado e também em resultado do mundo ser como é, os imigrantes não só vieram para cá, como por cá procuram ficar (e, tal como “nós”, também abalam rapidamente para outro lado se a oportunidade surge…). Provavelmente, em resultado da nossa periferia geográfica e da volátil prosperidade económica, não viremos a ter a presença de grandes minorias imigrantes com elevado crescimento demográfico e maiores diferenças culturais.
A avaliar pela maneira como lidamos com a nossa minoria tradicional (os ciganos), não parece haver um “modo português” para lidar com os problemas de integração: rapidamente, nos momentos de alarme, vai-se da indiferença hostil para a xenofobia caceteira. Indiferentes à presença de famílias com seus velhos e crianças, agressivos na generalização e suspeição.
Acredito que boa parte das reacções assentam na ignorância que gera preconceito e medo, daí ficar muito curioso em ver o resultado do trabalho jornalístico referido neste post de Fernanda Câncio. Não só porque é uma visão com o ponto de vista do “Outro”, mas também porque é feito por uma jornalista competente, dotada de olhar crítico para a visão complacente sobre as minorias, capaz de levantar alguns temas que servem para a crítica da “tradição”, do “costume”, de todo o peso da cultura que leva à autosegregação e ao racismo no seio das minorias.
