Á volta da Quinta da Fonte tem havido polémicas sobre assuntos mais vastos e interessantes: o racismo, as minorias étnicas, a assistência social do Estado, os bairros sociais em particular.
Um dos que me prende mais a atenção é a oposição entre “negros” e “ciganos” no bairro, duas “minorias” pouco apreciadas pela “maioria branca”: tanto quanto posso aferir, a maioria das opiniões da “maioria branca” tem optado pelos ”negros” contra os “ciganos”. Já neste post exprimi o que penso sobre a utilidade destas generalizações “étnicas”.
Quando a mesma “maioria” se pronuncia sobre os “negros” (os imigrantes, os portugueses filhos/netos de imigrantes) associa-os à delinquência em geral, ao crime violento em particular, a gangues de jovens incontrolados. Considera-os “racistas” (“são mais racistas do que nós” ainda há dias ouvia uma senhora ao telemóvel, na paragem do metro), competindo com os “portugueses” nos parcos recursos da Segurança Social e nas ofertas de trabalho.
Sobre os “ciganos” que diz a mesma “maioria”? Que estão ligados ao comércio da droga, à criminalidade em geral, competindo com os “portugueses” na assistência social. Tal como os “negros”, são “mais racistas do que nós”, para usar a magistral frase citada acima.
Ambas as “comunidades” têm em comum a apetência pelos dinheiros que deveriam ser destinados aos portugueses carenciados, têm um gosto particular pelo uso imoderado de armas e pelas práticas criminosas, marcam a diferença entre “eles” e “nós”. Então, porque haver “preferência” por uns contra os outros?
Há umas décadas atrás, num contexto bem diferente, o melhor que ouvia dizer dos Ciganos era serem muito católicos e muito unidos, respeitando os mais velhos e defendendo a família acima de qualquer coisa. E dizia-se isso como sendo um elogio, algo em que os “portugueses” podiam seguir o exemplo. Hoje é raro ouvir esse comentário, e pergunto-me se houve alteração nesse padrão cultural dos Ciganos, se no padrão cultural dos Portugueses em geral (Ciganos incluídos, porque agora sou eu a falar).
Pela minha percepção ingénua do dia-a-dia, parece-me que a “simpatia” pelos “negros” radica na constatação, pouco reflectida, incoerente, mas pragmática, de que os “negros” são uma realidade muito complexa, variada, que não se reduz ao estereótipo: afinal, “eles” têm diversas origens (geográficas, sociais, culturais), estão presentes nos mais diversos planos do quotidiano (escola, emprego, lazer, espaços públicos, etc), relacionam-se tanto a título individual como familiar (familia nuclear). Resumindo: quando o nível de alerta social é baixo ou nulo, “eles conseguem ser parecidos” com a “maioria”, ao ponto de fazerem parte dessa mesma “maioria”.
Com os “ciganos” já não é assim: visíveis enquanto “comunidade”, família tribal, seja nos negócios, seja na escola, seja nos espaços sociais comuns, sua presença peca sempre por “excessiva” (quem lida com um, lida com toda a sua família). Daí que, mesmo quando não existem razões objectivas para alarme, existe o receio permanente de entrar em conflito, ainda que banal, com um “cigano”, pois atrás dele mais virão.
Se esta minha percepção estiver minimamente correcta, posso concluir que a dificuldade maior para a integração das “minorias” nas “maiorias” está na mentalidade que valoriza a “comunidade” frente ao “indivíduo”, os “padrões de cultura” frente à “lei geral do Estado”. Ao contrário, uma sociedade que assegure pela Lei a igualdade dos indivíduos, independentemente do sexo, raça, religião, provavelmente abrirá as portas ao laicismo, à emancipação da mulher e à miscigenação das raças.
Nos anos setenta da minha adolescência, havia a polémica da oposição entre o Indivíduo frente ao Estado. Para uns, o Indíviduo era uma abstração para minar os movimentos colectivos das massas contra os privilégios de classe; para outros era a marca d’água que diferenciava a Sociedade Democrática do Estado Totalitário. Questões de raça ou religião pareciam ser coisas do passado. No sec.XXI, posso constatar que as sociedades totalitárias e os movimentos de massas são coisa do passado (até ver…), enquanto prosperam os estados xenófobos, racistas, confessionais, assim como se vão disseminando novamente as ideologias respectivas, numa reciclagem paradoxal, demencial. Como dantes, o respeito aos principios da Declaração Universal dos Direitos do Homem mantém-se como o maior desafio que se lhes coloca.
Mundo confuso, não?