Sem as imagens, a cores e ao vivo, a notícia era relegada para a secção “Local” dos jornais e, eventualmente, poderia ter uma chamada de atenção breve na TV. Porém, aos mais impressionáveis as imagens sugerem o Líbano, as favelas do Rio . Sem dúvida, são um bom tema de indignação para a casual conversa no elevador, com quem nos calha beber o cimbalino de cada dia ou para botar no blogue.
A mim não me impressionaram mesmo nada, mas isso sou eu com a minha longa experiência de testemunha ocular de tiroteios de rua, revoluções urbanas, guerras civis atrozes e guerras regionais, mundiais, das estrelas até! Experiência feita duma razoável cultura televisiva e cinematográfica. Pois o que me chama a atenção nas imagens é o valentão que dispara 4, 5 tiros de pistola e pose de artista, logo se afastando para detrás da segurança da esquina dum prédio, reaparecendo depois mais por ver outros a seu lado a dispararem, do que por convição. E, ao mesmo tempo, uma mulher tenta agarra-lo (suponho que para o tirar dali), enquanto alguém a segura o melhor que pode para que não prejudique os movimentos do pistoleiro.
Mais complicado de falar é a natureza do conflito: “pretos contra ciganos” num bairro dos subúrbios da grande cidade. Num país em que a opinião só se consegue exprimir tomando partido, este é um desafio para os arreigados preconceitos da imensa maioria “branca”, supostamente mais nacional, mais indígena e com direitos de cidadania: “entre pretos e ciganos, por quem vou torcer?“
E sempre vou ouvindo, daqui e dali (e de quem menos espero…ainda sou tão ingénuo!), que a melhor solução é “separa-los” em bairros próprios. Não seria inédito, e posso acrescentar que os habitantes desses bairros poderiam estar sujeitos ao recolher obrigatório depois do sol-pôr, como em muitas cidades portuguesas acontecia em certos bairros até ao final do sec.XV.
Outra solução, essa ainda mais “portuguesa”, é deixar baixar a poeira e fazer de conta que já passou. Que é o inverso simétrico da mentalidade de desalojar moradores dum bairro e realoja-los noutro, numa engenharia social ainda mais ingénua do que eu próprio, pois faz de conta que nada se irá passar (aqui na região do Porto são vários e bem conhecidos os bairros sociais que tiveram essa génese).
A minha ingenuidade não é tanta para me iludir com soluções prêt-à-porter, para reclamar do governo ou do mundo. Como cidadão português residente em Portugal, tendo o português como lingua materna, aparentemente “branco” e supostamente católico, às vezes dou comigo a pensar o que seria se vivesse num país onde o meu domínio da língua local fizesse rir os indígenas, a cor da pele me denunciasse como “o Outro”, e tudo isso agravado com o estigma dum culto religioso que come o seu “deus-vivo”, duma comunidade que cheira a alho e aprecia imoderadamente o bacalhau seco.
Daí que este caso seja algo diferente, já que envolve duas comunidades minoritárias, ”estranhas” e “mal-vistas”. Talvez por isso mesmo seja menos difícil ensaiar soluções que possam servir para conflitos futuros e mais complicados. Afinal, estamos a falar de “segurança”, o limiar para lá do qual é fácil justificar toda a barbárie. É neste capítulo que se justifica, plenamente, a autoridade do Estado, na defesa como na repressão, na integração e no desenvolvimento.
Assim como também é o momento de por à prova a chamada “sociedade civil” (palavrão que diz tudo e não diz nada) a começar pelas ditas cujas comunidades.
Ponho sempre em reserva a expressão “comunidade” quando se aplicam a distinções étnicas (qual será o sentido duma comunidade “africana” num bairro de Loures?), pois tanto ameaçam o sentido da cidadania e do indivíduo, como reforçam preconceitos e pretensas autoridades tradicionais; por outro lado, tendem a confundir os comportamentos criminosos de gangues com a população em geral. Também aqui, há simbolos que podem ultrapassar as particularidades e unir na diversidade.
Aquela seleção “de todos nós” não tem ciganos, africanos, madeirenses, brasileiros, transmontanos, alentejanos, reds, culés, portistas, até benfiquistas?!
