Se bem que eu nada tenha a ver com isso, também me parece que uma decisão destas é fracturante da tradição apostólica presente em todas as igrejas no primeiro milénio e só vem aumentar os obstáculos à reconciliação entre a igreja católica e a igreja de Inglaterra.
Ironias à parte, a referida “tradição apostólica” deriva do singelo facto de JC não incluir mulheres na dúzia de discípulos a quem incubiu a missão de andarem a pregar pelo mundo. Mundo romano, mundo grego, mundo judeu, ou seja, o Império Romano no tempo da sua máxima glória…e em qualquer um desses mundos a tradição era não incluir mulheres em posição de igualdade com os homens.
Certo: em Roma e Grécia haviam as Sibilas, as Pitonisas e as Ménades (ou Bacantes), em Israel havia Débora. Todas mulheres, todas ligadas aos Mistérios, à profecia e outros dons divinos, sim. E em tudo inquietantes, para dizer o mínimo. Não admira que nem a tradição judia, nem a grega, nem a latina, ao longo destes últimos dois mil anos, tenham dado relevo às mulheres na direção dos cultos públicos e da religião organizada.
Acontece que a cultura iluminista e o espírito libertário que assolaram a Europa nos últimos séculos tiveram como resultado esta coisa estranha de impor leis para que exista igualdade de direitos (e deveres) entre homens e mulheres, no fôro pessoal, como público. O que, associado à liberdade de pensamento, de expressão e de associação, resulta numa mentalidade bem diferente daquela do tempo em que JC andava pelo mundo.
A tradição apostólica pode ser a de sempre, mas as mulheres (e os homens) pensam, agem e reclamam como não era tradição “no primeiro milénio” (pelas minhas contas já vamos no terceiro…). E a Igreja Católica está absolutamente certa quando diz (sem dizer) que o processo pela emancipação feminina e a luta pela igualdade de direitos é favorecida e, por sua vez, reforça, o processo de laicização das sociedade.
O tempora o mores!
