Deve ser algo frustrante, para quem governe um país sem qualquer prurido democrático, aperceber-se de que os seus legisladores deixaram algumas pontas soltas na malha do regime autoritário.
No caso de Mugabe, as responsabilidades também são suas já que deu demasiada confiança, a opositores internos e a críticos externos (mesmo que amigos), que agora se arrogam a dar opinião sobre os assuntos da governação.
Este “não parece capaz de permitir” até parece podia ser um eufemismo para não melindrar a autoridade de quem decide sem ter de prestar contas a ninguém, mas atente-se à referência a uma ”segunda volta livre e equitativa” para se confirmar a ingerência e o sentido crítico destes vizinhos intrometidos.
O desplante pode ir mais longe, como se vê aqui:
Em declarações à BBC, em Londres, Mandela lamentou “o falhanço trágico da liderança” do Zimbabwe. (in edição impressa do Público de 26/06/08).
Mesmo que o tom seja de lamúria, não de indignação. Mesmo que se fale de falhanço como quem diz erraste, tentaste mas não conseguiste, deu pró torto. Mesmo que se usem palavras de ressonâncias profundas e sentidos múltiplos como tragédia e liderança. Porque, e Mugabe não se iluda, este é o modo de tratar um velho gagá a aceitar tratamento, antes de ter de se socorrer da camisa-de-forças e ao internamento compulsivo.
Mas não consigo deixar de pensar, cá para os meus botões, que o verdadeiro, grande erro de Mugabe foi o de pretender legitimar sua ditadura com a encenação de eleições livres e democráticas. Tivesse ele assente a legitimidade do poder num alegado direito revolucionário, num plebiscito bem orquestrado (ou seja, em regime de partido único e restrição de liberdades) e hoje ninguém se atreveria a por em causa o seu direito a desgovernar o país (prontos, ninguém não: sempre haveriam uns chatos a chatear fora de fronteiras).
Tivesse ele, ao menos, se lembrado de dizer mais cedo de que só Deus tem poder para o afastar da cadeira do Poder: isso era suficiente, como qualquer monarquico miguelista em Portugal lhe teria explicado as minudências jurídicas e e as virtudes teocráticas. E está visto que, se for para o apear do dito cujo cadeirão, ninguém conte com a ajuda de Deus.
Então, porque deixou este antigo guerrilheiro e libertador da nação se enredar num processo eleitoral que é, ainda, um resquício da herança colonial? Herança vergonhosa em antigas colónias britânicas como a India e os Estados Unidos, onde ninguém governa 30 anos consecutivos (nem mesmo às prestações) e a oposição não só tem direito a se opor como a virar governo?!
Para cúmulo, Mugabe era até ontem um cavaleiro da rainha de Inglaterra (Sir Mugabe, I presume) e deixou que ela o derrubasse do cavalo!
