Em (mais uma) época de crise económica, em período de intenso debate eleitoral (no PSD, pelo menos), esta entrevista do coordenador do estudo “Um olhar sobre a pobreza” não traz grandes novidades, mas sintetiza de modo claro, objectivo, os dados essenciais para um programa político, para um desafio a colocar à sociedade:

Porque a pobreza é um fenómeno social, não apenas individual: é não ter recursos para participar nos hábitos e costumes da sociedade
O que sabemos é que, durante esse período de 20 anos, andámos à volta dos 20 por cento. Mesmo que se admita que houve uma tendência ligeiramente decrescente, não explica que a ordem de grandeza se situe nos 20 por cento. A pobreza em Portugal ou se manteve estável ou teve uma redução sem proporção com o esforço feito desde que Portugal entrou na UE, na luta contra a pobreza
Todos dizem que a economia portuguesa não pode continuar com salários baixos. O que se diz a seguir é que os salários não podem aumentar sem aumentar a produtividade
Uma das causas de baixa produtividade é a baixa qualificação dos trabalhadores, mas isso só explica uma parte muito pequena.(…) Há muitas outras: a organização da empresa, os métodos de gestão. Há uns anos, se se dissesse que também os empresários tinham baixas qualificações, seria quase um escândalo. Hoje, é uma realidade que entra pelos olhos dentro. A sociedade portuguesa estava atrasada em termos de qualificações, a todos os níveis.
O sistema educativo está desenhado à imagem da família média e média alta: métodos pedagógicos, conteúdos escolares, o tipo de apoio que a criança pode ou não ter em casa, dadas as condições de habitação ou o grau de instrução dos pais… Há certos pressupostos de que os pais têm conhecimento para ajudar, de que têm acesso à internet ou a livros de consulta… Às vezes, as crianças não têm sequer um canto para fazer os trabalhos de casa.
dois terços dos portugueses atribui a pobreza a factores que não são solúveis: fatalismo, má sorte, preguiça dos pobres
Na transição do Rendimento Mínimo Garantido para o Rendimento Social de Inserção, no debate público que houve parecia que as pessoas estavam mais interessadas em combater a fraude dos pobres do que em resolver o problema da pobreza
Este fracasso colectivo não tem “um” responsável e faz de todos responsáveis. Mais uma vez, a vertente da educação é destacada, e com o problema de sempre: desadequada ao país que somos, no mínimo. O que, a somar à vertente cultural (fatalista, desconfiada, conformista), tem como resultado a falta de produtividade de trabalhadores/empresários/empresas/Estado e a falta de apoio social aos carenciados.
Se a isto acrescentarmos que Portugal distingue-se como sendo o país onde a repartição é a mais desigual, temos um perfil notoriamente retrógado.
Comparando com o desempenho dos restantes países comunitários, os velhos e, principalmente, os novos, o resultado é triste. E se compararmos a tradicional região industrial do Norte de Portugal com a vizinha Galiza…
Entretanto, o discurso do Governo (deste, dos anteriores, com toda a certeza dos próximos) é: autoestradas, aeroporto de Lisboa, nova ponte de Lisboa, zona ribeirinha de Lisboa, barragens hidro-eléctricas a granel.
E porque para o mês é o Europeu de futebol, os media preocupam-se com os ausentes no estágio em Viseu, mostram os quartos dos jogadores no estágio em Viseu, revelam o que pensam os “anónimos” na rua sobre a selecção nacional em estágio em Viseu. Supostamente fazem-no porque é isso que mobiliza audiências. O pior é que são capazes de ter razão…