Em Maio próximo temos uma efeméride mais: os 40 anos do Maio de 68. Muitas e distintas coisas se têm dito a seu respeito, mas a que me interessa particularmente, aquela que me parece ser o seu efeito duradouro, é a da atitude simultâneamente intelectual e emocional, assumidamente bem humorada e corrosiva, num desrespeito instintivo pelo argumento de autoridade e numa desconfiança sistemática às instituições (partidos revolucionários e sindicatos operários incluídos).
Como fenómeno duma época, insere-se na corrente libertária que se vivia nos Estados Unidos, na revolução estética que vinha de Londres, e que, de algum modo, se associam todas as três à luta pela liberdade na “outra europa”, a que vivia emparedada por um muro e sujeita a mão de ferro.
Numa linhagem respeitável com alguns séculos, esse espírito anti-autoritário e irreverente foi marcando os códigos legais, alterando toda a escala de valores “tradicionais” e está sempre disponível para uma boa polémica sobre os fundamentos do que quer que seja.
Na sua ênfase pelo indivíduo e pelo social, é tão característicamente “ocidental” como “universal”. Numa década em que a intolerância terrorista provoca reacções securitárias e faz regressar o medo irracional, recuperando o velho discurso autoritário e os estereótipos do bom comportamento, vinha mesmo a calhar uma efeméride como esta.
