Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas às vezes é bom lembra-lo.
Que o cão é o melhor amigo do homem, não discuto, e até posso concordar que o maior perigo nos cães das chamadas “raças perigosas” reside nos donos (ou por que raio de razão haverão de escolher, para bicho de estimação e guarda, logo uma raça conhecida pela sua agressividade?).

Agora que venham dizer que a existência duma legislação que regulamente a posse dessas raças caninas é uma solução, isso só se for para rir!
E rio-me, entre outras razões, pela consabida relação entre a existência da legislação mais avançada sobre milhentas coisas e a sua aplicação efectiva, neste pacato país à beira-mar.
Todavia, o assunto nada tem de divertido ou trivial. Nos últimos anos têm-se sucedido relatos alarmantes de adultos e crianças atacados, mortalmente até, por cães das raças visadas pelo Governo. Inclusive, existem lutas de cães por este país, coisa abominável que reforça o meu medo.
Porque quando vejo um desses cães em lugar público, com ou sem dono pela trela, sinto-me inquieto. Se for com crianças, sinto medo. Medo, mesmo. E vejo-me na necessidade de reflectir se é sensato afastar-me, se estar muito quieto e manter as crianças tranquilas, e assim por diante…
Mas haverá alguma razão para alguém ter o direito de me amedrontar assim?! Porque se houver, logo me passará a ideia de eu também ter o direito de andar armado, por exemplo. Para a eventualidade de ser atacado por um cão, por exemplo.
Ora, nem quero andar armado, nem quero que ninguém ande. Por uma questão de segurança e bom senso, já que confio pouco nas reacções humanas em situação de stress e medo.
Quando era criança e andava pelo montes (sim, literalmente pelos montes e sozinho), trazia sempre um pau na mão e algumas pedras no bolso para afastar os rafeiros que podiam surgir pelo caminho; não era nada de dramático, até porque nesse tempo os maiores cães que havia pelas bandas eram pastores alemães (moda que já passou, pelos vistos), geralmente presos durante o dia (os donos diziam que era para ficarem “maus” e guardarem a casa à noite…e em liberdade, claro), e um Serra da Estrela.
Mas o Serra da Estrela era meu, cão tranquilo como é apanágio dos da sua raça, e, como qualquer criatura viva, podendo reagir à agressão e às injustiças, mas sem nunca ter mordido alguém em 13 anos de existência.
Nesse tempo, convivia bem com a realidade ameaçadora do cão que ladrava à distância quando me sentia aproximar do seu território, pois entendia a mensagem e procedia conforme os meus interesses (ou desviava-me, ou corria-o à pedrada). Se o confronto surgia em terra de ninguém, geralmente era motivado pela surpresa do encontro e ambos nos afastávamos de modo a nenhum se sentir ameaçado (era mais barulho do que outra coisa).
E haviam aqueles cães verdadeiramente psicopatas (como um que meu avô tinha), e com os quais lidava de acordo com estratégias intuitivas: evitava-os, fugia a sete pés ou já vinha carregado de pedras nas mãos e bolsos (além do inseparável pau).
Com tudo isto, para um miúdo de hoje esta parece uma história mais pavorosa do que as dos cães das referidas raças perigosas de hoje. Mas não: tudo se passava num meio familiar, num território bem conhecido onde os protagonistas igualmente se conheciam, havendo códigos de conduta e de luta comuns. Raramente alguém era ferrado por um cão.
O único que me mordeu até hoje foi num meio urbano, na sala de estar duma tia, tinha eu 4 anos e era uma amostra de cão peludo que andava sempre ao colo da tia. Nunca percebi o que o motivou a saltar do colo dela e morder-me o braço, pois, nem antes, nem depois, dera sinais de semelhante agressividade (pelo que deduzo ter sido uma coisinha má que lhe passou).
Por tudo isto, confio na minha experiência e intuição para levar a sério o meu actual medo pelos cães de raça perigosa com que me cruzo na rua.