O filme Joyeux Noël (2005) relata um episódio verídico passado na Iª Grande Guerra, impossível de imaginar numa época de exércitos profissionais: a confraternização, amizade e cumplicidade dos combatentes em trincheiras opostas. O que, em qualquer época, é sempre encarado como alta-traição.
A Iª Grande Guerra foi “ofuscada” pela IIª Grande Guerra, que se lhe seguiu após uns meros 20 anos, a todos os títulos: dimensão, destruição, horror, absurdo, consequências e desenvolvimentos posteriores. Porém, nela se reúnem de modo flagrante os temas da incompetência das grandes chefias militares e do seu absoluto desprezo pela vida humana (mesmo que fosse a dos “nossos”).
O que ela tem de única e irrepetível, foi a transformação repentina de pacatos cidadãos normais em soldados e oficiais lutando nas mais cruéis frentes de batalha até então conhecidas. Cidadãos dos países mais desenvolvidos, prósperos, democráticos e tolerantes que jamais houveram na história do mundo, trabalhadores de todas as classes sociais (num tempo em que elas ainda tinham significado claro e evidência visual).
Literalmente da noite para o dia, viram-se de armas na mão em terras de ninguém, sujeitos à mais mortíferas armas de combate de sempre, frente-a-frente com outros homens da mesma condição. E cedo se deram conta do absurdo da guerra, da vacuidade dos discursos patrioteiros, de serem “carne para canhão” na óptica dos grandes e pequenos marechais e generais que se instalavam, confortavel e tranquilamente, longe do fogo da metralha e dos pavores das trincheiras.
Foram milhões de homens que viveram combatendo, e morrendo, a famosa guerra que iria terminar com todas as guerras…
Há dois dias atrás, o derradeiro combatente francês ainda vivo morreu de morte natural. Seu testemunho pessoal é um verdadeiro hino a uma Europa sem fronteiras, sem guerras: nascido em Itália, procurando trabalho em França aos 9 anos, combatendo pela França em 1914, depois pela Itália em 1915, salvando a vida dum “inimigo” alemão, confraternizando com as tropas austríacas inimigas num desfiladeiro perdido no Tirol, honrou sempre o juramento de não esquecer os companheiros mortos na guerra.
(…) Je suis d’abord tombé sur un Allemand, le bras en bandoulière. Il m’a fait deux avec ses doigts. J’ai compris qu’il avait deux enfants. Je l’ai pris et je l’ai emmené vers les lignes allemandes. Quand ils se sont mis à tirer, il leur a crié d’arrêter. Je l’ai laissé près de sa tranchée. Il m’a remercié.
(…) Les deux camps s’envoient des messages avec un élastique puis sympathisent. “Ils nous donnaient du tabac et nous des boules de pain. Personne ne tirait plus.”
Les hommes organisent même des patrouilles communes. La farce dure trois semaines, manque de se terminer devant un conseil de guerre. “L’état-major nous a déplacés dans une zone plus dure.”
(…) Je tire sur toi mais je ne te connais même pas. Si seulement tu m’avais fait du mal.” (Lazare Ponticelli in LeMonde)