Desde a sua fundação, o BCP foi paradigma de visão estratégica, boa gestão e inovação. Houve, também desde o início, a polémica ligação com a Opus Dei e a (concomitante?) descriminação sexual ao não empregar mulheres por uma questão de produtividade. Porém, a imagem que vingou foi a da grande empresa que revolucionou a banca portuguesa e criou padrões de excelência, nomeadamente nos recursos humanos.
Agora que que as coisas estão como estão, quando um simples como eu se interroga sobre estas magnas questões frente a um terminal multibanco, é natural que se pergunte: mas como foi possível acontecer tudo isso e ninguém saber só mesmo no fim e sei lá o que mais virá?
Ora, duas ou três noites atrás, estava este simples a saltitar entre os canais de notícias e no sossego do lar, quando escuta alguém que parece saber do que fala dizer qualquer coisa assim: “o problema radica, desde logo, na própria estrutura da gestão do BCP, pois todos os administradores eram administradores executivos, não havia nem controle, nem fiscalização independente, etc, etc.” Tudo noções muito acima dos meus calcanhares, mas que me levou as lágrimas aos olhos quando, ao fim de tantos anos, percebi que o BCP tinha no seu código genético a marca da sua própria “destruição” . E, do modo desassombrado como falou quem falava, bem patente para quem tivesse alguns rudimentos de gestão de empresas.
Ou seja, mais um mito nacional a juntar ao da batalha de Ourique, à da manhã de nevoeiro donde regressará D.Sebastião, ao do recatado professor de Santa Comba Dão e ao do aeroporto da Ota.
Todavia, tenho de me deixar de falsas modéstias e admitir que desde sempre (melhor dizendo, desde que o BCP existe) desconfiei das competências de management dos seus administradores por causa da fobia ao trabalho feminino. Bem sei que sou suspeito ao falar disto, já que minha mãe é mulher, assim como a mulher que amo e, até, minha filha também é. Certamente, com outra experiência de vida um administrador pode chegar à conclusão de que as mulheres são criaturas com insuficiências e mácula bastantes para se poder confiar responsabilidades ao nível bancário e financeiro.
O que me faz recordar uma conversa (na verdade, um monólogo) com um taxista (não, não é clichê) faz mais duma década, em que ele afirmava ser muito simples a solução do problema do desemprego: bastava as mulheres deixarem de trabalhar e ficarem em casa. Devo confessar que a clareza do raciocínio e a evidência da demonstração da chave para uma das maiores dores de cabeça de qualquer governo, deixou-me esmagado. Pensando nisso, até fico desejando que ele seja um desses milhares de pequenos accionistas do BCP.