No tradicional conflito fumadores/não-fumadores, a falta de respeito-educação-civismo-higiene-bom senso dos primeiros sempre foi notória e levou vantagem. O facto de ser não-fumador/fumador-passivo torna a minha opinião suspeita, mas por mais voltas que dê à memória, quando foi que eu “atropelei” os direitos dum fumador? Quando exijo respeito na partilha comum do território em que, momentâneamente, nos cruzamos?!
A legislação que penaliza, proíbe ou restringe o fumo é-me simpática, a mim que que sou contra os “proibicionismos” por instinto, mas nestas coisas de territorialidade existem os que procuram passar pelo mundo sem causar grande mossa e os que são indiferentes ao peso da sua pegada ecológica. Sempre me aborreceu a complacência do fumador em aceitar o seu pequeno, exigente vício e a lata em fazer de todos os outros recipientes residuais do seu prazer.
Já a ideologia que move mentalidades como a que a ASAE manifesta com óbvio respaldo governamental, é uma questão algo diferente: a mistura de legislação que garanta a segurança (e cujo principio ninguém contesta) com regulamentações bizantinas, absurdas ou impraticáveis é uma tendência que vem de longe, numa perversão da necessidade de acautelar riscos. Sem teorias de conspiração, creio que se reduz à utopia de todo o responsável, político ou burocrático, em se blindar frente a toda e qualquer acusação de negligência.
Daí ver e ouvir com muita curiosidade o estertor agónico dos que se sentem limitados na sua liberdade individual (Oh Locke, Oh Thoreau!), perseguidos na sua pequena líbido, revoltados contra o estado policial e a legislação intolerante. E como conseguem fazer disso um caso nacional! Por vezes, parece que o espírito libertário, capaz das grandes revoluções e dos feitos d’armas, só surge perante causas transcendentes como a introdução/aumento das portagens nas autoestradas e a legislação anti-tabagista.
Existem outras violências em que “toda gente” está de acordo, só que o protesto fica confinado aos afectados, e cada “grupo descriminado” luta por si: desde as vilas e cidades que vêem encerrar urgências-maternidades-postos de saúde nocturnos às localidades afectadas pela passagem das linhas de muito-alta-tensão. Como nas revoltas populares de outros tempos, a contestação surge e desaparece aqui, para reaparecer ali, sem coesão, sem continuidade.
Em matéria de autoritarismo e arbitariedade podem-se citar dezenas de casos nacionais, sejam as já famosas juntas “médicas”, as boas prácticas administrativas tipo “caso Charrua“, a devastação do património natural através dum programa maciço de construção de barragens, o aeroporto da Ota e tudo o que se fez e disse, dando-o como o melhor, garantido e viável. Mas aqui já não há unanimidades. Por vezes, nem polémica existe (que é o pior) quando o que há para fazer envolve dinheiro (que se confude com investimento), trabalho (que se confunde com emprego), obras (que se confunde com desenvolvimento).
Se calhar porque os temas não interferem com as estimadas liberdades individuais. Ou assim se julga…
Ou, mais simplesmente, porque não interferem nos nossos hábitos. E isso assusta: falta de hábito de partilhar os problemas locais, falta de hábito em exigir informação e debate sobre as decisões que afectam a pequena/grande comunidade, falta de hábito em questionar/criticar/propor/promover decisões “superiores” e suas alternativas. Falta de hábito de cidadania.
E por mim falo: mea culpa.
nada mau