Vai por aí um certo escândalo pela “beatificação” dumas centenas de espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola. Como não sou católico, não se me oferece dizer nada em causa própria, porém espanta-me tantos santos, beatos e quejandos ao longo do sec.XX, um século que sofre o labéu de “materialista” e alheio às coisas divinas.
Lá está, quando falo de santidade e similares também não sei do que estou a falar, mas parece-me nunca ter havido um tempo de santidade (quantitativamente falando) como o passado século.
Ouvindo quem sabe:
são “um apelo premente à unidade, à paz, ao reconhecimento e ao respeito por cada ser humano, ao diálogo, à mão estendida, ao perdão e à reconciliação entre todos” (Arcebispo de Toledo e Primaz de Espanha, Cardeal Antonio Cañizares)
“Paz“, “respeito por cada ser humano“, “reconciliação entre todos“?! “Reconciliação e coexistência pacífica“?!
Assim dito, até suspeito que a Igreja Católica está a lançar a responsabilidade pela morte dos beatos sobre os franquistas, que por muito menos mataram muitos mais. É que eu, do pouco que conheço da Guerra Civil, não tenho dúvidas das responsabilidades do “lado” republicano sobre estas mortes, mas também sei que um exame mais detalhado leva a conclusões menos simplistas e bem mais problemáticas.
E é a própria Igreja Católica a evitar essas comparações quando o Secretário de Estado Bertone afirma: “não foram propostos à veneração do povo de Deus pelas suas implicações políticas, nem para lutar contra quem quer que seja, mas para oferecer a sua existência como testemunho de amor a Cristo”.
Como também desconheço tudo sobre a identidade e biografia dos beatos, fico desconfiado se os padres bascos, que lutaram e morreram pelo lado da República, não o fizeram, e ao contrário dos beatos, “como testemunho de amor a Cristo” (deviam ser outras as razões).
Isto faz-me pensar, ainda, se o ”martírio” (uma palavra muito na moda neste sec.XXI, é curioso) dos beatos também não teria menos a ver com “amor” e mais com as realidades mesquinhas do momento (mas essa é outra daquelas coisas que nos levariam tão longe e por tãos ínvios caminhos, que é melhor não complicar).
Afinal, já no sec.IX e na Córdova do califado Omeya, surgiram uns candidatos ao martírio que se celebrizaram por insultarem publicamente Maomé e publicarem textos anti-muçulmanos. Como a liberdade de expressão já era algo limitada, as autoridades fizeram-lhes a vontade, e como diria o cardeal Saraiva Martins “Se se perdesse a memória dos cristãos que sacrificaram a vida para confessar a fé, o tempo presente, com seus projectos e ideais, perderia uma preciosa componente, já que os grandes valores humanos e religiosos deixariam de estar corroborados por um testemunho concreto, inscrito na história”.
Talvez por isso, vem-me vagamente à ideia uns textos camilianos onde abundam frades miguelistas de espingarda ou cacete na mão, defendendo a fé e o senhor rei D.Miguel. Também foram tempos duma Guerra Civil, também é justo recorda-los neste momento.