Ontem passou a 2ª parte do documentário de Joaquim Furtado, excelente como o primeiro. É um exercício de memória, informação e debate excepcional, trazendo temas gerais que ajudam a reflectir os problemas actuais, mesmo que não directamente a ver com Portugal. Um exemplo: a reacção da “comunidade branca” (chamemos-lhe assim por comodidade e cometendo a injustiça de tomar a parte pelo todo) depois dos massacres contra os colonos no Norte de Angola por parte da U.P.A..
Apanhada de surpresa, naturalmente chocada e apavorada com a dimensão e a natureza dos massacres, a comunidade pôs-se na defensiva, constituiu milícias (até porque não haviam tropas no território para assegurar o controle da situação) e passou ao contra-ataque. Mas contra-ataque a quem? Pelos testemunhos ouvidos de ex-governantes locais, ex-militares, ex-guerrilheiros, o critério estava na cor da pele.
A partir daí, as milícias lançam-se nas acções arbitrárias (segundo um testemunho, até a P.I.D.E. entendeu que eram excessivas) típicas destes momentos: terror, tortura, morte. Em muito pouco tempo, a ficção duma “comunidade portuguesa” angolana se desfaz num conflito racial sangrento, odioso e sem sentido.
E ao assistir aos relatos, recordei a situação da ex-Iuguslávia, os mitos das “Grande Sérvia”, “Grande Croácia” ou outros sonhos nacionalistas que não olham a meios, nem a custos, para se cumprirem. Mas cujos resultados são, invariavelmente, países estropiados economica e socialmente.
Também me veio a comparação com as reacções xenófobas de quem quer, hoje e na Europa, tratar o problema do terrorismo islamita na base da repressão indiscriminada das comunidades de confissão islâmica.
Comparação reforçada pela ideia que já tinha de que, na altura, a repressão colonial castigava duramente aqueles que melhor poderiam estabelecer uma via de diálogo e negociação, empurrando-os definitivamente para uma situação de ruptura violenta. Embora as comparações e analogias sejam geralmente traiçoeiras e falsas, retenho a facilidade com que, nos momentos de medo e confronto, surgem mecanismos de exclusão, da delimitação a traço grosso dos “nós contra eles”, numa ignorância atroz das realidades. E com que resultados…
Nesta 2ª parte foi focada, ainda, a pressão norte-americana sobre o regime salazarista e as divisões no seio do próprio regime, quanto ao modo como lidar com a “crise”.
O regime ignorou os avisos sobre o que viria a acontecer e que resultou nos massacres de colonos. Desprezou os apelos ao realismo, à diplomacia e à tolerância. Pôs de lado as teses, oriundas das próprias Forças Armadas, da ineficácia duma guerra para defender as colónias.
Mesmo sem recorrer ao conhecimento de como tudo acabaria 13 anos mais tarde, ou de aplicar a grelha de valores da cidadania do sec.XXI, basta o conhecimento do contexto em que Salazar decidiu “partir para Angola, depressa e em força” para pensar como o “maior português de todos os tempos” era um político bem mesquinho, afinal (mesmo se mais não houvesse para lhe apontar).
Permita-me uma pequena nota: o episódio de ontem (uma espécie de flash back relativamente ao primeiro) situa-se antes do 15 de Março no Norte pela UPA. Mais concretamente, sobre o 4 de Fevereiro em Luanda (também se refere, embora ligeiramente, que ainda antes, em Janeiro, tinha havido a greve e o massacre na baixa do Cassanje, Malanje) e a reacção posterior da comunidade colona. Assim, o horror do massacre de Março, pela UPA, no Norte de Angola (dirigido contra a população colona e os negros que não aderiram à revolta) foi precedido de duas acções de extermínio de sentido inverso: o massacre do Cassanje (sobretudo por meio de bombardeamentos aéreos a varrerem zonas povoadas por negros) como resposta a uma greve dos trabalhadores “contratados” na colheita de algodão e de que resultaram milhares de vítimas civis (não eram guerrilheiros) e indefesas; a “resposta” ao 4 de Fevereiro (acção em que participou a UPA e militantes de outras pequenas organizações pré-MPLA e que visou não a população colona mas sim alvos selectivos do aparelho repressivo – uma esquadra da polícia e duas prisões – visando a libertação de priioneiros angolanos prestes a serem deportados para o Tarrafal ou simplesmente liquidados em que as vítimas do lado colonial foram polícias) e que consistiu em acções de extermínio sistemáticas e repetidas de negros em vários pontos de Angola apenas com base da cor da pele. Ou seja: a mortandade racista (negros contra brancos) da UPA em Março no Norte foi precedida de duas mortandades inversas (brancos contra negros) – em Janeiro no Cassanje e em Fevereiro em Luanda e outras cidades. Não me parece pois correcto falar-se de “a reacção da “comunidade branca” (chamemos-lhe assim por comodidade e cometendo a injustiça de tomar a parte pelo todo) depois dos massacres contra os colonos no Norte de Angola por parte da U.P.A.”. Para se falar de “reacção”, deve dizer-se, com mais propriedade, que “o massacre contra os colonos no Norte de Angola em Março foi uma reacção aos massacres da “comunidade negra” em Janeiro e em Fevereiro no Cassanje, em Luanda e outras cidades de Angola”. É uma questão de lógica cronológica. Embora um massacre não justifique outro massacre, o certo é que houve dois massacres de negros feitos por colonos, antes do massacre inverso (e outros massacres de negros por colonos e pela tropa se seguiriam após Março). A guerrilha da UPA cometeu de facto crimes repugnantes em Março (seria, aliás, o único fenómeno deste tipo em toda a luta de ibertação de Angola), enquanto o massacre de negros por colonos, pela PIDE e pelo exército colonial foi, nos vários teatros de operações da guerra colonial uma constante antes da acção da UPA em Março e depois. Desculpe o “lençol” mas custou-me ler uma inexactidão de enquadramento no seu magnífico post. Abraço.
MUITO BOM O CONTEUDO
Caro amigo.
Para dar o meu testemunho, nunca é tarde.
Estamos em presença de um trabalho muito bem elaborado, onde felizmente é tomada em consideração a parte secularmente sacrificada, dos filhos da terra.
Sempre do lado dos explorados, dou-lhe os meus sinceros parabéns e se necessitar da minha modesta ajuda, contacte-me pois sempre tenho uma vivência directa dos acontecimentos em questão, com a particularidade de ser como já o reconheceram “filho adoptivo do povo angolano”. saudações do Henrique Mota.